A guerra eleitoral nas redes sociais ganhou um novo capítulo com a circulação de um vídeo falso atribuído a Flávio Bolsonaro (PL).
Vídeo falso de Flávio Bolsonaro feito com IA viraliza após cartilha orientar militância petista a atacar candidato
Áudio manipulado atribui ao candidato declaração contra direitos trabalhistas que ele não fez; documento que circula entre militantes orienta estratégia para desgastar Flávio no segundo turno.

Um vídeo manipulado com inteligência artificial que atribui a Flávio Bolsonaro uma declaração contra direitos trabalhistas ganhou forte repercussão nas redes sociais. A gravação original não contém a frase atribuída ao candidato. Paralelamente, uma cartilha que circula entre militantes petistas orienta apoiadores de Lula a concentrar esforços em argumentos contra Flávio para conquistar eleitores no segundo turno. Até o momento, porém, não há comprovação de que o PT tenha produzido o vídeo falso.
Na gravação adulterada, o candidato aparece aparentemente fazendo uma declaração na qual coloca direitos trabalhistas e geração de empregos em lados opostos.
O problema é que Flávio não disse aquilo no vídeo original.
Uma checagem publicada nesta terça-feira (6) identificou que o áudio foi manipulado com inteligência artificial. A ferramenta Hive Moderation apontou 93,7% de probabilidade de adulteração. UOL Notícias
E o alcance foi enorme.
A publicação analisada pela checagem já acumulava mais de 346 mil curtidas no Instagram. UOL Notícias
O que Flávio realmente dizia no vídeo?
A gravação verdadeira havia sido publicada pelo próprio Flávio Bolsonaro em 27 de janeiro.
No conteúdo original, ele falava sobre uma viagem a Israel, acompanhando familiares e relatando uma visita ao memorial do Holocausto.
Não havia qualquer declaração contra direitos trabalhistas naquele trecho.
O áudio que posteriormente circulou nas redes foi substituído para fazer parecer que Flávio dizia:
“O trabalhador vai ter que decidir um dia entre menos direitos e emprego ou todos os direitos e desemprego.”
Essa é umas das imagens que circula na internet associando o Candidato a uma Mentira!

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A checagem também não encontrou registro dessa declaração em veículos jornalísticos confiáveis. UOL Notícias
Portanto, nesse caso específico, estamos diante de conteúdo falso atribuído ao candidato.
Vídeo aparece enquanto cartilha circula entre militantes do PT
Ao mesmo tempo, outro material ganhou repercussão durante o segundo turno.
Uma cartilha de 12 páginas atribuída à militância petista circula nas redes sociais com orientações sobre como abordar eleitores e tentar conquistar votos para Lula.
O documento recomenda estratégias diferentes para idosos, beneficiários de programas sociais e principalmente pessoas que votaram em candidatos da chamada terceira via no primeiro turno. Revista Oeste
Em determinado trecho, a orientação é bastante clara:
“Fale do Flávio, não do Lula.”
O documento argumenta que dificilmente o eleitor da terceira via passará a gostar de Lula e, por isso, a estratégia deveria ser fazer Flávio deixar de parecer uma alternativa aceitável. Revista Oeste
Cartilha apresenta ataques considerados mais eficientes
O material também afirma existirem três linhas de ataque que funcionariam melhor contra Flávio.
Entre elas estão questionamentos sobre o histórico administrativo do candidato, sua relação política com Donald Trump e sua confiabilidade.
A cartilha ainda sugere formas de abordar esses assuntos sem utilizar diretamente determinadas acusações.
Um dos exemplos reproduzidos pelo documento é evitar uma acusação direta e substituí-la por uma pergunta sobre as pessoas com quem Flávio mantém relações políticas. Revista Oeste
A estratégia declarada é direcionar a conversa principalmente para pontos negativos atribuídos ao adversário, em vez de tentar convencer o eleitor exclusivamente pelas propostas de Lula.

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Existe outra cartilha oficial da campanha
Também é importante separar os documentos.
Antes do primeiro turno, a própria campanha de Lula produziu um “Guia da Conversa” de 19 páginas, cuja existência foi confirmada pela imprensa.
O material ensinava militantes a abordar eleitores em locais como ruas, pontos de ônibus e até filas de estabelecimentos comerciais.
O guia trazia respostas sugeridas para economia, religião, juventude, mulheres e outros assuntos da campanha. CNN Brasil
Entre as orientações estava compartilhar os argumentos com diferentes pessoas da rede de contatos do militante.
A campanha defendia que a disputa eleitoral deveria ocorrer também em conversas presenciais e pelo WhatsApp. CNN Brasil
Mas a cartilha prova que o PT criou o vídeo falso?
Não.
Esse é o ponto mais importante para manter a matéria factual.
Existem simultaneamente:
1. um vídeo comprovadamente adulterado atribuindo uma declaração falsa a Flávio;
2. materiais de campanha e de militância orientando estratégias para desgastar politicamente o candidato.
Mas, com as informações disponíveis até agora, não existe evidência suficiente ligando a direção do PT à produção do vídeo manipulado específico. Revista Oeste
Também não seria correto afirmar que a cartilha “ensina a cometer fake news” simplesmente porque ensina militantes a atacar politicamente um adversário.
A acusação de produção coordenada de desinformação precisaria de provas adicionais, como autoria, financiamento, distribuição organizada ou orientação explícita para fabricar informações falsas.
IA virou problema central da eleição
O caso ganha ainda mais relevância porque a Justiça Eleitoral adotou regras específicas para conteúdos produzidos ou alterados por inteligência artificial durante o período eleitoral.
Desde 1º de outubro, plataformas passaram a aplicar restrições a conteúdos envolvendo imagem, voz ou manifestações de candidatos modificadas por IA.
A Meta informou que a aplicação das regras levou inclusive à derrubada de publicações de políticos, ministros e militantes de diferentes campos políticos. Folha de S.Paulo
O objetivo é justamente impedir situações nas quais o eleitor assista a um candidato aparentemente fazendo uma declaração que, na realidade, nunca aconteceu.
Desinformação aparece nos dois lados da disputa
Também existem registros recentes de desinformação envolvendo o outro lado da eleição.
Monitoramento do UOL Confere identificou conteúdos falsos compartilhados em grupos ligados à campanha de Flávio Bolsonaro no WhatsApp.
Segundo a apuração, ao menos dez conteúdos classificados como falsos foram enviados para grupos com alcance estimado em centenas de milhares de pessoas.
A mesma reportagem identificou também uma informação falsa distribuída pela plataforma petista “Pode Espalhar”, relacionada ao Bolsa Família. UOL Notícias
Ou seja, o problema da desinformação eleitoral não está restrito a apenas um dos campos políticos.
Segundo turno deve aumentar guerra digital
A propaganda eleitoral do segundo turno volta oficialmente ao rádio e à televisão nesta sexta-feira, 9 de outubro.
Lula e Flávio Bolsonaro terão tempos iguais: dez minutos diários divididos em dois blocos, além das inserções distribuídas durante a programação.
A votação está marcada para 25 de outubro. UOL Notícias
Mas, nas redes sociais, a campanha já está funcionando a todo vapor.
E o vídeo adulterado de Flávio mostra um problema que deve acompanhar esta reta final:
com inteligência artificial, já não basta perguntar se determinada declaração é absurda. Também será necessário verificar se o candidato realmente a pronunciou.

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